
O conceito de Circo Social está hoje amplamente difundido no Brasil e no mundo, existindo, de fato, uma grande diversidade de concepções metodológicas desenvolvidas sobre esta idéia. Entretanto, pouco se sabe da origem do conceito e das condições do seu surgimento.
O que é o Circo Social, para além de juntar técnicas circenses e crianças e jovens de classes populares, como costuma aparecer para o senso comum?
Desde o início do trabalho do projeto Se Essa Rua Fosse Minha (em diante SER) a proposta foi desenvolver metodologias onde o lúdico fosse elemento aglutinador, cuja proposta pedagógica esteve ancorada em uma leitura que entende a criança e o adolescente na sua potencialidade criadora, cerceada pelas condições sociais às quais eles são expostos. Assim, em 1991, a procura por uma proposta metodológica para o trabalho com as crianças e jovens em situação de rua levou à equipe do SER a investir na utilização da linguagem circense como instrumento pedagógico, colocando a partir da prática as bases para o conceito de Circo Social.
A partir de uma primeira parceria com a Intrépida Trupe, e mais tarde junto ao Teatro de Anônimos, as equipes do SER, em diálogo permanente com os jovens e artistas circenses foram desenvolvendo e sistematizando uma prática que encontrava na própria linguagem circense as bases para uma nova forma de diálogo pedagógico para construção de cidadania.
A experiência serviu de modelo para a criação do programa social Cirque du Monde, realizado inicialmente através de uma parceria de intercâmbio e fortalecimento entre o Cirque du Soleil, a ONG canadense Jeunesse du Monde e o SER. A partir dela, o Cirque du Soleil adota o conceito de Circo Social e ajuda a difundi-lo pelos cinco continentes, ganhando na riqueza e diversidade das experiências, alimentando-se da vivência dos jovens e do complexo mundo do circo e da cultura popular em diversos lugares.
Por sua vez o SER inicia junto a jovens ex moradores de rua a implantação de núcleos de Circo Social em diversas comunidades do Estado do Rio de Janeiro, como a Vila Cândido no Complexo da Maré, Vila Camorin, em Queimados, Vila Paciência, na Zona Oeste, o Complexo Cerro Corá, perto do Cristo redentor e a Casa da Cultura em São João de Meriti, entre outros.
Em 2000, a partir de uma articulação entre a FASE, o Cirque du Soleil, o SER e outros projetos apoiados pelo programa Cirque du Monde (ARICIRCO, Escola Pernambucana de Circo e Afro Reggae), é fundada a Rede Circo do Mundo Brasil (RCM-Br), que hoje conta com 24 instituições que trabalham com circo social nas 5 regiões do Brasil, atingindo uma media de 10.000 crianças, adolescentes e jovens de classes populares. Nela, ampliam-se os debates teórico/práticos sobre o Circo Social junto aos educadores e agentes culturais do país.
A história do Circo Social se expande como uma rede nas mais diversas direções e, de um modo inesperado, cada uma das ramificações volta ao conceito, alimentando-o. O complexo processo de expansão do conceito de Circo Social e a multiplicidade de experiências que o alimentaram durante os últimos dezessete anos nos mais diversos lugares do mundo, fazem com que seja praticamente impossível falar dele como um conceito único, unívoco.
Para nos aproximarmos desta relação entre a origem e a sua forma atual de desenvolvimento, podemos tentar entendê-lo traçando um paralelo com uma plataforma de software-livre, de código aberto (open source), uma metodologia ou concepção que pela própria lógica torna impossível a idéia da propriedade intelectual, mas que cresce num contínuo fluxo social de fazer.
Assim, e sem pretender entrar em detalhes técnicos, vemos como no caso do sistema operacional Linux a abertura dos códigos-chave do sistema operacional permite um desenvolvimento extremamente frutífero, graças à intervenção quase anônima de milhares de desenvolvedores pelo mundo todo, os quais lançam distribuições do software adequadas às mais diversas necessidades específicas, rompendo com a lógica do chamado “software proprietário” e, assim, da propriedade privada do conhecimento. De uma maneira diferente, estimulam a criatividade e a autonomia no próprio processo em que o sistema é reproduzido em infinitas redes virtuais.
Do mesmo modo, o Circo Social não é um conceito fechado ao qual possa se atribuir uma determinada “propriedade intelectual”. Não o vemos como um conjunto de técnicas a serem replicadas, mas como uma proposta político-pedagógica aberta, baseada numa perspectiva dialógica da educação no entendimento da complexidade social.
Verbete Circo Social* “De um modo geral pode-se definir a Metodologia de Circo Social como a construção por meio da arte circense de um diálogo pedagógico no contexto da educação popular e numa perspectiva de promoção da cidadania e de transformação social. Assim, pelo longo processo de sistematização das suas práticas, que data de inícios da década de 1990, e pelo explícito conteúdo social, político e cultural da proposta e do contexto em que se desenvolve, o conceito de Circo Social é muito mais do que simplesmente aplicar oficinas de técnicas circenses em projetos sociais. É sim, uma proposta político-pedagógica que aposta no desenvolvimento criativo e na construção da cidadania a partir dos saberes, necessidades e potencialidades das crianças, adolescentes e jovens das classes populares. * Verbete escrito em 2006 por Claudio Barría, do SER, representante nacional do Circo Social nas Câmaras Setoriais de Cultura, por solicitação da coordenação deste órgão do MinC. |
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Se Essa Rua Fosse Minha |