Nossa história

O Se Essa Rua Fosse Minha- SER surge em 1991 como um projeto que visava sensibilizar a sociedade e o poder público em torno da questão dos meninos e meninas em situação de rua. Co-idealizado pelo sociólogo Herbert de Souza, o Betinho, o projeto se consolida a partir da ação coordenada de quatro organizações não governamentais: FASE, IBASE, IDAC e ISER. Além de desenvolver uma ampla campanha de mobilização, o projeto se propõe iniciar uma ação de inclusão e garantia de direitos.

Em maio de 1992 foram implantados os dois primeiros Núcleos de Abordagem de Rua - NAR, concebidos como espaços de atendimento diário onde, através de atividades lúdicas, esportivas e principalmente artísticas, educadores sociais estabelecem uma relação de confiança e acolhimento com as crianças e adolescentes, de forma a intermediar suas demandas mais imediatas e suscitar a construção de alternativas à vida nas ruas.

Em julho daquele mesmo ano foi criada a Nossa Casa, um centro de atendimento diário aos meninos e meninas encaminhados da rua, onde hoje funciona o Centro de Desenvolvimento Criativo - CDC. Tendo como eixo a arte e a cultura, em especial as atividades circenses, a Nossa Casa funcionava como espaço de apoio, convivência e formação, dando continuidade ao processo de intermediação social iniciado nas ruas.

Em 1994 foi inaugurada a Casa de Acolhida de Vila Isabel, em parceria com a Prefeitura do Rio de Janeiro, para acolher 25 meninos dispostos a sair das ruas e com impossibilidade de retorno à família ou comunidade de origem.

O SER foi pioneiro na utilização da linguagem circense como viés metodológico para o trabalho junto a crianças e adolescentes em situação de risco. O sucesso dessa escolha ficou evidente no aumento da auto-estima e do sentimento de autopreservação, geradores de uma opção pela mudança na realidade pessoal desses meninos e meninas.

Os resultados obtidos com o trabalho de circo consolidaram a idéia da linguagem circense como estratégia de promoção pessoal e social, nascendo assim o conceito de circo social.

Essa experiência serviu de modelo para o programa social Cirque du Monde, realizado através de uma parceria entre o Cirque du Soleil, a ONG canadense Jeunesse du Monde e o SERFM no Rio de Janeiro, multiplicando-se assim o conceito de circo social em outras instituições cariocas e nas cidades de Belo Horizonte, Recife, Cidade do México e Santiago do Chile.

Nesse período de funcionamento várias crianças e adolescentes já encaminhadas para a Casa de Acolhida de Vila Isabel, abrigos públicos, ou que retornaram para a família de origem em comunidades, continuavam a retornar ao espaço do Se Essa Rua, na rua Alice, por ser um espaço de referência, convivência prazerosa e oportunidades sociais. A partir da participação nas atividades desenvolvidas ali muitos conseguiram empregos, matricularam-se em escolas regulares, profissionais ou de arte, como a Escola Nacional de Circo.

Esse fluxo de adolescentes e jovens propiciou uma relação de troca com meninos e meninas que estavam nas comunidades e que se sentiram motivados a participar também das atividades do circo social ou das diversas oficinas e programas oferecidos no Casarão da rua Alice.

Esse processo suscitou a ampliação dos objetivos da Nossa Casa - inicialmente apenas um espaço de passagem para crianças e adolescentes em situação de rua - para constituir-se também num espaço de multiplicação da experiência vivida. Teve início então o CDC: que, além das atividades já desenvolvidas, passou a atuar como Centro de formação e promoção do protagonismo juvenil. Alguns jovens já capacitados como instrutores de atividades circenses passaram a atuar junto a meninos e meninas em situação de rua ou egressos das ruas, e junto a jovens de comunidades populares próximas à instituição e outras das periferias do Rio de Janeiro.

Iniciou-se então uma frente de trabalho que aliou o circo e o protagonismo juvenil numa ação social e educativa voltada para o enfrentamento da vulnerabilidade da população infanto-juvenil das classes populares por meio da potencialização das suas competências criativas.

Em 1999, com alguns jovens, ex-meninos de rua, formados como multiplicadores dessas ações, inicia-se a implantação dos Núcleos de Circo Social, espaços extramuros voltados para a promoção pessoal e social de crianças e adolescentes residentes em bairros populares, através da arte e da cultura.

Na interface da estratégia dos núcleos comunitários e a proposta metodológica do Circo Social do Se Essa Rua, nasce em 2002 a primeira Lona de Circo em Vila Camorim, uma comunidade com baixíssimo Índice de Desenvolvimento Humano -IDH-, na cidade de Queimados, na Baixada Fluminense. Esta experiência de sucesso passa a ser replicada em Paciência, no Rio de Janeiro e no Morro do Estado em Niterói

Num movimento natural, produzido pela relação estabelecida pelos multiplicadores, adolescentes e jovens atendidos nesses núcleos e lonas, começam a freqüentar o CDC em busca de aperfeiçoamento e de ampliar seus horizontes.

Esse processo foi redefinindo as propostas de intervenção pedagógica, as prioridades e os diferentes perfis desses jovens protagonistas, reformulando assim as prioridades no planejamento das ações do próprio projeto.

Hoje, o SERFM atua em três frentes de trabalho interligadas:

Destarte, ao longo dessa experiência veio se dando o fortalecimento de modos específicos de intervenção, surgidos tanto de uma pesquisa-ação contínua baseada na observação das relações estabelecidas pelos adolescentes e jovens, como das propostas emergidas da visão dos mesmos, da sua percepção do mundo, do outro e da interação com suas formas de inserção social e cultural. Assim, e em constante interação com as propostas metodológicas do SER, vêm se delineando três perfis que passam a sustentar a proposta de irradiação de protagonismo juvenil tida como base do presente projeto de formação, e que dão sua verdadeira razão de ser ao Centro de Desenvolvimento Criativo. São estes: o perfil dos Circuladores, associado à experiência do Circo Social, multiplicadores dos debates sobre cidadania e multiculturalismo em meio urbano; o perfil dos Brincantes, ligado à experiência de teatro de popular e de bonecos, com elo com a cultura do nordeste brasileiro e os Griots, jovens contadores de histórias que ligam rua e comunidades, trazendo uma discussão embasada sobre a cultura negra, a discriminação e o papel dos jovens com relação às tradições culturais.

Odesenvolvimento de cada um desses perfis tem como base uma sólida formação em temas de cidadania que atravessam a vida desses jovens, como a questão da violência, das drogas, sexualidade, gênero, etnia e metodologias de gestão social visando a autonomia e sustentabilidade das iniciativas desenvolvidas junto a suas comunidades.

Juntoao trabalho que vem desenvolvendo nos últimos 13 anos com meninos e meninas de classes populares, suas famílias e comunidades, o SER tem participado ativamente da mobilização da sociedade civil pelos direitos da infância, como membro da ABONG, do Fórum DCA Rio, como conselheiro do CMDCA, e como co-fundador da Rede Circo do Mundo e da Rede Rio Criança, além de desenvolver uma constante parceria com diversas instituições de ensino superior, como a UFF, UNIRIO, UFRJ, UERJ, Estácio de Sá, Salgado de Oliveira, entre outras, cooperando no desenvolvimento de pesquisas sobre a infância, disponibilizando seus espaços para estágios curriculares ou com representação em seminários aos quais é convocado para compartilhar sua experiência. Este processo de troca de saberes tem permitido à instituição lançar novos olhares críticos sobre o conhecimento gerado a partir da prática de seus educadores e dos jovens que multiplicam suas experiências de cidadania cultural por meio da arte.



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